?──────??──────?
Samuel caminhava em dire??o à saída da torre, seus passos firmes ecoando sobre o ch?o metálico. O ambiente ao redor voltava a se tornar menos artificial-raízes emergiam das rachaduras, trepadeiras se agarravam às estruturas corroídas, e a luz pálida das lampadas oscilantes se misturava ao brilho esverdeado da vegeta??o bioluminescente.
O ar carregava umidade e um leve aroma de terra, um contraste sutil com o frio metálico do restante da torre. Ele já havia passado por ali antes, mas, desta vez, algo parecia diferente. O vento soprava de maneira irregular pelas fissuras, e as sombras entre as folhas se moviam de um jeito que ele n?o podia ignorar. Como se a própria torre estivesse atenta à sua presen?a, respirando junto com ele.
Antes que pudesse cruzar a última passagem, sentiu dois olhares sobre ele.
Koran e Drax estavam encostados na parede, observando-o com express?es carregadas de desconfian?a. No entanto, n?o era Samuel que eles analisavam, e sim o pequeno dispositivo em seu ouvido, pulsando em um verde fraco.
— Parece que ela achou mais um... — murmurou Koran, cruzando os bra?os, o olhar carregado de amargura.
Drax soltou uma risada curta, desdenhosa.
— Bem feito pra esse babaca.
Koran hesitou por um momento, seus olhos se fixando nos de Samuel. Seu maxilar se tensionou por um instante, e seus dedos se fecharam devagar, como se estivesse segurando algo que preferia n?o lembrar. Parecia querer dizer algo, talvez um aviso, talvez uma acusa??o, mas, ao invés disso, apenas soltou um suspiro contido.
— Hm... você tá certo...
Drax percebeu a hesita??o e decidiu mudar de abordagem.
— Ele tá indo pra algum lugar.
— Para onde será...?
— Temos que segui-lo pra descobrir.
Koran franziu o cenho.
— Sério? Mas e a Dr.Lira.. e o seu descanso?
Drax arqueou uma sobrancelha, um sorriso cínico surgindo em seu rosto.
— Você vai reclamar?
O canto da boca de Koran se ergueu levemente.
— N?o...
--- ?? ---
O vento frio atingiu Samuel assim que ele saiu da torre, carregando consigo o cheiro metálico da ferrugem e o zumbido distante de circuitos falhando. O mundo ao seu redor parecia adormecido, como se estivesse esperando por algo — ou por alguém.
Ele deu um leve suspiro, sentindo o peso da miss?o sobre seus ombros. Seus olhos foram atraídos pelo horizonte, mas a fragilidade do mundo à sua volta, com as máquinas falhando e as estruturas em colapso, o fez ponderar por um instante. Samuel n?o concordava com o ódio — mas entendia de onde ele nascia. Ignorá-lo nunca foi uma op??o.
Ent?o, um ruído vibrou em seu ouvido. O dispositivo captou um sinal fraco, e a voz de P.A. soou, fragmentada, como se estivesse lutando para manter sua própria existência.
— Estou fraca demais para sustentar minha voz... — um ruído cortou a transmiss?o, antes que ela voltasse, ainda mais instável. — Por enquanto... você terá que seguir minhas ordens...
Samuel n?o respondeu de imediato. Apenas ergueu os olhos para o horizonte. Ele sabia o que isso significava. O tempo estava contado. E com ele, a única chance de descobrir o que realmente estava acontecendo nesse mundo.
O cenário ao redor refletia a mesma fragilidade do núcleo. Os rob?s que se espalhavam pelos arredores moviam-se de forma errática, seus olhos brilhando em tons fracos e intermitentes. A redoma que os cercava n?o escapava desse destino-sua estrutura emitia estalos leves, como se estivesse prestes a colapsar.
If you encounter this tale on Amazon, note that it's taken without the author's consent. Report it.
Samuel avan?ou sem hesita??o, parando diante da redoma. Como se a reconhecesse, uma pequena fenda se abriu à sua frente, permitindo sua passagem.
No instante em que cruzou a abertura, os sons abafados do tumulto se tornaram mais nítidos. Gritos, murmúrios exaltados e passos apressados se misturavam no ar carregado de tens?o.
Os olhares se voltaram para ele.
Samuel sentiu o peso de cada par de olhos que o fitava-olhares cheios de desconfian?a, julgamento e medo. Mas n?o era ele que estavam encarando. Era o dispositivo.
O tumulto cresceu. Agora, era contra ele.
A voz de P.A. vibrou no dispositivo, carregada de frustra??o.
— O que mais eles querem de mim? — seu tom carregava uma raiva contida. — Eu já os dou abrigo, prote??o e comida, e eles me retribuem roubando meu corpo e fazendo revoltas.
Samuel continuou andando, ignorando os insultos ao seu redor. O peso dos olhares lhe pesava, mas nada que o parasse, ele sabia que precisava seguir em frente. A miss?o sempre foi clara. E, por mais difícil que fosse, ele n?o podia vacilar.
— Tem que ter algum motivo para isso. Eles n?o se revoltariam sem raz?o.
— Eles me odeiam porque sou uma IA.
— Mas isso n?o é motivo suficiente.
— Infelizmente é. A guerra é a principal raz?o...
Samuel estreitou os olhos. O tom de P.A. agora estava diferente, carregado de uma dor palpável. Ela, que até ent?o sempre foi uma inteligência fria e objetiva, agora soava mais humana, mais próxima, como se o peso de suas palavras refletisse algo profundo dentro dela.
— Esse ódio nasceu da guerra?
— Principalmente...
— Principalmente?
De repente, uma figura se destacou da multid?o, um homem de fei??es endurecidas pelo tempo e cicatrizes cruzando seu rosto. Ele olhava para Samuel com pura avers?o, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— Mais um deles... — sua voz soou amarga, carregada de ressentimento. — Mais um fantoche!
Outros come?aram a murmurar, inflamados por suas palavras. Alguém na multid?o hesitou, seu olhar oscilando entre a fúria e a dúvida.
— Mas e se ele n?o for um deles? — arriscou uma voz mais jovem, insegura.
— Olha pra esse maldito dispositivo! - retrucou, apontando para Samuel. — Você acha que aquilo é o que? Acha que ele n?o vai nos matar assim que aquela coisa ordenar?
As palavras caíram sobre os presentes como brasas acesas, despertando memórias e rancores. O ambiente estava tenso, prestes a explodir. Ent?o, o momento de hesita??o se quebrou.
Uma pedra voou em sua dire??o.
Num piscar de olhos, Samuel girou sobre os calcanhares e agarrou o projétil no ar, interrompendo sua trajetória com um simples movimento. O estalo da pedra quebrando em suas m?os ecoou, ampliando o silêncio que logo seguiu.
O líder franziu o cenho, hesitante. O jovem de antes arregalou os olhos. Outros trocaram olhares incertos, como se o movimento de Samuel tivesse quebrado algo dentro deles. Uma dúvida plantada, que eles n?o podiam mais ignorar.
Com um leve aperto, Samuel reduziu a pedra a fragmentos que caíram de seus dedos, dispersando-se no ch?o como poeira.
Nenhuma palavra foi dita. Nenhum outro ataque veio.
Apenas o silêncio.
Sem mudar a express?o, Samuel retomou sua caminhada, cada passo pesado com o fardo da desconfian?a crescente que o seguia.
Do outro lado da transmiss?o, P.A. observava tudo.
— Para onde você pensa que vai? - perguntou, sua voz mais firme agora, como se o toque de confian?a tivesse retornado.
— De volta para a Cidadela. N?o é lá que disse que pode está o seu corpo?
— Esse dispositivo chama aten??o demais. Você n?o pode ir sozinho. Mas eu sei quem pode nos ajudar.
Samuel parou.
— E para onde você quer que eu vá?
— Há um lugar ao norte daqui. O cemitério de rob?s da Cidadela: a Necrópolis de Ferro. Quando come?ar a ver carca?as espalhadas pelo caminho, saberá que está no lugar certo. Há um humano lá que pode nos ajudar com esse problema.
Samuel ponderou. O vento batia forte, mexendo as folhas ao seu redor, como se o próprio mundo estivesse aguardando sua decis?o. Ele n?o gostava da ideia de confiar em mais estranhos, mas sentia que n?o havia mais op??es.
— Um cemitério de rob?s? Tem certeza?
— Confie em mim. Eu sei o que estou fazendo.
Ele ficou em silêncio por um momento, ent?o retomou sua caminhada, agora com um novo destino.
O vento soprou mais forte quando ele seguiu na dire??o da Necrópolis de Ferro, deixando para trás a tens?o da multid?o e os olhares pesados que o perseguiam.
A noite se aproximava. E, com ela, os ecos de um passado quebrado voltavam a despertar. Naquele lugar, máquinas n?o eram enterradas apenas como sucata — mas como memórias que alguém preferiu esquecer.
?──────??──────?

